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As Farpas (Junho 1883) by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz



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Que, pela nossa parte, tome vossa alteza nota que nao pretendemos
sensurar ninguem! Uma vez que os paes de vossa alteza decidiram que esse
cavalheiro nos devia substituir para o acompanhar, nos nao temos que
dizer senao que vae muito bem acompanhado. Vae lindo! Nao haja duvida
nenhuma que vae perfeito!

E todavia e possivel que o veneravel sabio venha a abusar um pouco do
algebrismo technico da sciencia que tao gloriosamente professa e que,
quando vossa alteza o consulte sobre o _menu_ da sua ceia no cafe
Anglais ou sobre o governo do seu _cob_ na Avenue des Potins, elle lhe
responda pela formula KO+2S0 cubed, ou KO,2S0 cubed, a qual formula nao e
precisamente a da elegancia mais garantida, posto que seja, sem questao
alguma, a do bissulfato de potassa.

Antes de entrarmos agora na ordem dos conselhos que o nosso mister de
criticos nos impoe o dever sagrado de ministrar a vossa alteza,
consideremos por um momento o estado presente da educacao que vossa
alteza vae concluir na sua proxima viagem.

Um jornal insuspeito, o _Commercio de Portugal_, resume o programma
d'essa educacao no seguinte quadro:

_"Conhece o principe o latim, francez, inglez, italiano, allemao,
hespanhol, e estuda o grego. Faz com muito aproveitamento o curso de
humanidades; tendo ahi principalmente alargado os estudos sobre a
historia universal e patria. Estuda um curso regular de sciencias
naturaes e mathematicas. Nas sciencias sociaes, que pode-se dizer
constituem a_ SCIENCIA DO GOVERNO _para um principe, o curso de
disciplinas seguido por sua alteza tem sido o seguinte, que indicamos
mais desenvolvidamente por entendermos que muito interessa saber-se.

Comecou pelo estudo aprofundado da philosophia, especialmente dirigido
para o estudo superior da philosophia do direito.

Em 1878 comecou os estudos de philosophia racional e moral, e historia
systematica da philosophia.

Preparado assim, comecou em seguida o estudo de direito natural ou da
philosophia do direito. Passou depois a estudar o direito publico
interno e politico;--direito constitucional portuguez; e historia tanto
antiga como moderna das instituicoes politicas da nacao; organisacao da
administracao publica em Portugal nos seus differentes ramos; leitura e
explicacao do codigo administrativo e das leis eleitoraes.

Estudo comparado das instituicoes politicas das principaes nacoes cultas
e analyse de seu systema eleitoral.

Parallelamente e em licoes alternadas, sua alteza seguiu o estudo
sistematico da historia do direito publico da Europa, seguindo como base
a notavel obra "Le droit public et l'Europe moderne," do Vicomte
Lagueroniere.

Estudos dos principaes tratados porque foi alterada a carta e a
organisacao politica da Europa desde os tratados de paz de Westphalia
ate a actualidade.

Estudo dos trabalhos do conde de Cacour sobre a organisacao do reino de
Italia, e da correspondencia diplomatica mais importante sobre os
grandes acontecimentos politicos contemporaneos, seguindo esse estudo
pela excellente colleccao dos_ ARCHIVES DIPLOMATIQUES _.

Estudo dos principaes tratados diplomaticos de Portugal com a
Inglaterra; tratado de Bombaim 1661; tratado de Metwen 1703; tratados
d'allianca e de commercio de 1810; tratados da quadrupla allianca 1834;
tratados para a repressao do trafico de 1817 e 1822, e tratado de
commercio d'este mesmo anno.

Terminado o estudo especial do direito publico interno, e parallelamente
ainda com o estudo das disciplinas, que ficam indicadas, comecou sua
alteza a estudar o curso de Direito Publico Internacional, segundo uma
introduccao dos principios, que dominam este ramo importante da sciencia
do direito, e da theoria das nacionalidades, seguindo depois o estudo
especial sobre o_ DROIT INTERNACIONAL CODIFIE, _de Bluntschli, 1880._

Sua alteza esta ainda cursando estas disciplinas.

Em maio de 1872, comecou sua alteza conjuntamente com o estudo do
direito publico internacional o curso de economia politica, seguindo
especialmente o_ TRAITE D'ECONOMIE POLITIQUE SOCIAL, _de Joseph Garnier
(1880), comprehendendo muito especialmente o estudo do systema
fiduciario nas differentes nacoes, e dos caminhos de ferro e canaes,
como meios economicos.

Actualmente em seguimento a economia politica, estuda a sciencia de
fazenda segundo o_ TRAITE DES FINANCES, _de Joseph Garnier (1883) com
applicacao a organisacao de Portugal.

Para complemento do plano de estudo de sciencias sociaes, que foi
adoptado ainda faltam outras disciplinas. N'esse estudo, e nos outros,
continuara sua alteza finda que seja a sua viagem.

Com licoes de duas horas, e com uma exacta applicacao, o principe tem
podido vencer os estudos difficeis e variados, que ficam indicados.

Assim educam os reis de Portugal os seus filhos."

E claro que estas informacoes procedem directamente do paco. Tudo o
comprova: as datas, os titulos dos compendios e as suas edicoes, a ordem
detalhada dos estudos, as horas de licao, etc. Estamos por tanto em
frente de um testemunho authentico, de um documento historico.

Analysemol-o.

Vossa alteza e bastante moco ainda e bastante robusto para que o seu
cerebro haja resistido as influencias d'esse regimen aniquilador de toda
a intelligencia.

Note pois vossa alteza, em primeiro logar, a lingoa de preto em que esta
redigida esta exposicao.

Para dizer uma coisa tao simples, o stylo do mestre de vossa alteza
rabeia na confusao mais contorcida e mais comichosa, em lucta com a
pobresa de um vocabulario estreitissimo, de creada de servir. _Comecou
pelo estudo aprofundado ... Depois comecou os estudos de philosophia ...
Comecou em seguida o estudo do direito ... Parallelamente seguiu o
estudo systematico ... seguindo como base, etc._ Mas, Deus piedoso! isto
nao e escrever, isto e cocar-se. Quem nao pode exprimir-se melhor e que
vae ter furunculos, e nao deve escrever, deve tomar salsa parrilha.

Para julgar um tal plano de estudos, basta que vossa alteza um dia, as
escondidas d'esses senhores, abra um livro de um pedagogista, seja qual
for. Em qualquer artigo de encyclopedia vossa alteza lera, de resto, que
o fim da educacao e preparar o homem para a mais perfeita felicidade
d'elle mesmo e para a felicidade dos seus similhantes em virtude da sua
adaptacao mais fecunda ao meio physico, ao meio economico, ao meio
politico, ao meio esthetico, ao meio moral. Na parte relativa aos
conhecimentos, ou a instruccao propriamente dita, a educacao tem por
objecto fazer-nos conhecer as manifestacoes ou os phenomenos do
universo, principiando naturalmente por estabelecer as diversas
categorias em que esses phenomenos se dividem. _O cathecismo da doutrina
do real_, (citamos o que ha de mais elementar), reduz succintamente
todos os phenomenos que a educacao tem por fim submetter a nossa
investigacao as seis ordens seguintes:

1.--Os phenomenos da quantidade, da forma, da extensao e do movimento,
ou phenomenos _mathematicos_.

2.--Os phenomenos do movimento dos astros, da sua dimensao, das suas
distancias respectivas etc., ou phenomenos _astronomicos_.

3.--Os phenomenos do calor, da luz, da electricidade, do magnetismo, da
acustica, ou phenomenos _physicos_.

4.--Os phenomenos de combinacao e de decomposicao, ou phenomenos
_chimicos_.

5.--Os phenomenos proprios aos seres vivos, ou phenomenos _biologicos_.

6.--Os phenomenos do desenvolvimento das sociedades, ou phenomenos
_sociaes_.

Entre estas diversas ordens de phenomenos ha uma correlacao de
dependencia successiva. De sorte que se nao podem conhecer os phenomenos
da 6.ª categoria sem conhecer as da 5.ª; nao se podem conhecer as da 5.ª
sem conhecer as da 4.ª; e assim por diante.

Nao se aprende a astronomia e a physica terrestre sem nocoes
mathematicas. Nao ha chimica sem uma constituicao anterior da physica.
Nao ha phenomeno vital que se comprehenda sem o conhecimento previo da
synthese chimica. Nao ha finalmente facto social que se defina
scientificamente sem o conhecimento da synthese biologica.

As sciencias cujas leis regem os phenomenos dos differentes grupos a que
nos referimos acham-se hoje constituidas e chamam-se as sciencias
fundamentaes.

Cada uma d'estas sciencias se estuda por um methodo que lhe e privativo
e a que corresponde o desenvolvimento progressivo das nossas faculdades.
Assim o methodo das mathematicas e o do _raciocinio_ por deduccao; o da
astronomia e a _observacao_; o da physica e a _experiencia_; o da
chimica e a _analyse_; o da biologia, assim como o da anthropologia, ou
biologia applicada ao homem, e a _comparacao_; o da sociologia e a
_observacao critica_ e a _filiacao historica_.

A enunciacao d'esta ordem hierarquica dos conhecimentos deve-se a
Augusto Comte; e esta e a parte da doutrina d'esse poderoso renovador da
mentalidade humana que ninguem ate hoje discutiu nem contestou nas
grandes linhas geraes. Esta methodisacao e tao clara, tao consistente e
tao fecunda, que nao ha hoje systematisador que a nao adopte como a mais
segura das chaves para a coordenacao das ideias.

Emquanto a applicacao d'este principio a educacao diz Spencer:

"Que na educacao se deve proceder do simples para o composto e uma
verdade sobre a qual em certa medida todos se fundam. O espirito
desenvolve-se. Como todas as coisas que se desenvolvem, elle progride do
homogeneo para o heterogeneo; e como um systema normal de educacao e a
contraposicao objectiva d'essa marcha subjectiva, deve conter a mesma
progressao. Esta formula assim interpretada tem um alcance muito maior
do que a primeira vista parece; porque o seu principio implica nao
somente que temos de proceder do simples para o composto no ensino de
cada um dos ramos da sciencia, mas que outro tanto devemos fazer com
relacao ao conhecimento total. Como o espirito nao comeca por dispor
senao d'um pequeno numero de faculdades activas, e que as faculdades
desenvolvidas mais tarde entram successivamente em accao ate chegarem a
funccionar todas simultaneamente, segue-se que o ensino nao deve abracar
primeiro senao um pequeno numero d'objectos, successivamente
accrescentados ate que se comprehendam todos. Nao e somente na
especialidade que a educacao deve proceder do simples para o composto, e
tambem no conjuncto."

Em seguida Spencer accrescenta, de accordo com todos os pedagogos
modernos, que a educacao da creanca deve concordar no modo adoptado e na
ordem seguida com a educacao da humanidade considerada historicamente. A
genese da sciencia no individuo nao pode seguir uma marcha differente da
genese da sciencia na raca. E n'este ponto Spencer invoca o nome de
Comte e curva-se respeitosamente deante d'elle, porque a ordem
positivista dos estudos corresponde exactamente a evolucao dos
conhecimentos na humanidade, a qual principiou por investigar os factos
cosmologicos e inorganicos mui longo tempo antes de attender as leis
biographicas e a vida historica da especie.

Vejamos agora a luz d'estes principios como os pedagogos de vossa alteza
regularam a distribuicao dos conhecimentos que foram incumbidos de
ministrar-lhe.

_Sua alteza_--diz a informacao que analysamos--_comecou pelo estudo
aprofundado da philosophia_.

Esta simples proposicao inicial basta pelo seu profundo alcance
pathologico para sobre ella se diagnosticar a inepcia verdadeiramente
tragica que presidiu a educacao intellectual de vossa alteza.

Principiar pela philosophia!!

Mas a philosophia e precisamente a ultima das coisas que se ensinaria a
um homem, se a philosophia fosse coisa que se impuzesse a alguem pelo
dogmatismo dos mestres.

O que e uma philosophia senao um systema de leis, deduzidas pelo
espirito de cada um da confrontacao das causas e dos effeitos dos
phenomenos physicos e dos phenomenos moraes, e destinadas a fazer-nos
prever, a mais longa distancia da nossa comprehensao pessoal, o destino
do homem no gremio da sociedade e no seio da natureza?

Como e pois que alguem emprehende crear um philosopho de um menino de
instruccao primaria, fazendo-o systematisar pelas altas e subtis
correlacoes de causa e effeito um conjuncto de phenomenos, que elle nem
sequer conhece na sua funccionalidade concreta, quanto mais na
abstraccao psychologica de fim e de origem?

O principio fundamental de todo o systema de educacao e de ensino
e--como ja vimos--que, sempre e invariavelmente, se proceda dos factos
particulares para as leis geraes e das leis geraes para as leis de
applicacao.

Como e entao que a vossa alteza ensinaram leis de applicacao sem o
conhecimento previo das leis geraes e sem o conhecimento anterior dos
factos particulares?

Que especie de philosophia e esta que vossa alteza aprendeu, tao
extranhamente e tao miraculosamente como poderia ter aprendido a leitura
sem o conhecimento das letras ou a arithmetica sem a nocao dos
numeros?...

E a _instauratio magna_ de Baccon? E o scepticismo systematico de
Descartes? E o metaphysismo de Hobbes e de Leibnitz? E o deismo de Locke
ou o de Voltaire? E o sensualismo de Spinosa ou o de Condillac? E o
scepticismo de Berkeley? E o materialismo de Holbach ou de La Mettrie? E
o encyclopedismo de Condorcet? E o sentimentalismo de Rousseau? E o
idealismo de Kant e de Hegel? E o pessimismo de Hartmann e de
Schopenhauer? E o eclectismo do snr Cousin? E o revolucionismo de
Proudhon? E o objectivismo de Stuart Mill e de Herbert Spencer? E o
evolucionismo de Darwin? E o positivismo de Comte ou de Littre?

A informacao que tao opportunamente baixou da aula de vossa alteza a
redaccao do _Diario de Portugal_ arranca o nosso espirito perplexo a
esta cruel duvida.

Diz-nos esse papel precioso que a philosophia que vossa alteza aprendeu
e a _philosophia racional e moral_.

Ora, como vossa alteza talvez sabe, todo o termo affirmativo implica a
negacao de um termo contrario. Assim quem diz uma philosophia
_objectiva_ ou uma philosophia _materialista_, da a perceber d'esse modo
que ha uma philosophia _subjectiva_ e uma philosophia _espiritualista_,
mas que nao e d'essas que se trata.

Os pedagogos de vossa alteza, insinuando-lhe que e _racional e moral_ a
philosophia que lhe ensinam, deixam entender que ha tambem uma
philosophia _immoral_ e uma philosophia _irracional_, opposta a essa. E
triste o pensar que vossa alteza esta desde de 1878 a estudar uma coisa
que se convertera n'um systema de _irracionalidade_ e n'uma doutrina de
_desmoralisacao_ desde que vossa alteza se de ao ligeiro trabalho de
virar pelo avesso a tal coisa que lhe ensinaram.

O programma que tem regulado a instruccao de vossa alteza accrescenta
que vossa alteza tem estudado essa philosophia na _direccao do estudo
superior da philosophia do direito_, e que _assim preparado comecou em
seguida o estudo do direito natural_.

Perante uma tao espantosa affirmativa deitamos abaixo das estantes todos
os livros de "direccao philosophica" desde a mais remota antiguidade ate
os nossos dias.

Interrogamos avidamente as tradicoes egypcias do tempo das dynastias
pharoonicas, contemporaneas das pyramides e anteriores de quatro mil
annos a era de Christo, os vestigios que restam dos papyrus do _Ritual
funerario_ e do _Livro dos mortos_.

Interrogamos quanto se sabe ao presente da passagem no tempo e no espaco
da philosophia chineza do _Y-King_ e do _Chou-King_.

Inquirimos tambem, posto que com mais reserva, bem entendido, quanto se
deslinda para a especulacao philosophica dos mythos e dos emblemas
indecentes das religioes e das liturgias phallicas da Chaldea e da
Syria.

Relemos com olho pressuroso, e manuseamos com mao nervosa e ligeira tudo
quanto o snr Vasconcellos Abreu tem feito a merce de nos communicar a
respeito dos systemas philosophicos e mais systemas dos Aryas.

Consultamos Thales de Mileto e Democrito, Socrates e Platao,
Aristoteles, Zenon e Epicuro, Pomponacio e Averroes, todos os
escholasticos, todos os platonicos, todos os peripateticos, todos os
epicuristas, todos os pantheistas, todos os scepticos, todos os
materialistas, e todos os atheus, sem excepcao d'um so, desde os
_Dialogos da Natureza_ do seculo XVII ate o nosso moderno _Trinta_,
comprehendendo todos os atheus verdadeiros e todos os atheus fingidos,
desde Vanini, que morreu queimado como impio pelo parlamento de Tolosa,
ate um bom tendeiro nosso amigo que deixou de ir a missa ha mais de um
anno, para nao se comprometter com os socios do club _Gomes Leal_.

Pois bem: ao cabo de tao laboriosas excavacoes eruditas e de tao vastas
investigacoes historicas, podemos asseverar, sob nossa palavra de honra,
a vossa alteza, que nada encontramos nem nas tradicoes, nem nos livros
sabios, nem na conversacao viva dos doutos, que nos possa dar, ainda que
mui remotamente, ideia alguma do que venha a ser o _estudo de uma
philosophia especialmente dirigido para o estudo de outra philosophia_,
como aquella de que tao gloriosamente se trata no quadro dos
conhecimentos propinados a vossa alteza pelos seus venerandos mestres.

O _Direito Natural_, em que se diz que vossa alteza entrou depois do
preparo da _philosophia especialmente dirigida para a philosophia_, e a
reliquia rarissima de um estado mental que desappareceu da esphera
philosophica, mas cujos vestigios tivemos a fortuna de poder encontrar
ainda entre os ferros-velhos da historia do pensamento.

Parece que houve com effeito, em tempos, o que quer que fosse a que se
deu o nome hoje archaico de _Direito Natural_.

Alem da gente anonyma e desconhecida que com mao mysteriosa taberneia em
Portugal o ensino publico e o de vossa alteza, ninguem mais ignora hoje
em dia que todo o Direito e um producto da civilisacao, e nunca uma
manifestacao ou uma obra da natureza. Nas sociedades rudimentares nao se
conhece o Direito. Nas sociedades civilisadas o Direito varia, segundo
as concepcoes intellectuaes que dirigem o progresso em cada uma d'essas
sociedades. E d'ahi vem que o Direito e eterno. E eterno precisamente
porque e progressivo, como e progressiva a moral e a arte, e nao porque
seja um ideal innato a natureza do homem.

O erro da velha denominacao de _Direito Natural_ procedia de que os
philosophos desconheciam a natureza, e em sua boa fe a consideravam
recta e justa. Mas Darwin veio. Desde entao ficou demonstrado que, pelos
processos porque ella opera na formacao dos aggregados humanos, a
natureza e immoral e e iniqua.

A lei do universo basea-se sobre o concurso d'estes dois grandes
agentes: a _luta pela vida_ e a _seleccao natural_. A luta pela vida e o
estado permanente de todos os seres, para os quaes a creacao e uma
eterna batalha. A sorte do conflicto decide-a a seleccao natural. Como?
Fixando na especie, pela adaptacao ao meio, os seres mais fortes, e
expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel affirma: "A
theoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas
sociedades animaes, nem os _direitos_ nem os _deveres_ nem os _bens_ nem
os _gosos_ dos membros associados podem ser eguaes."

Ora o que e que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente
o contrario d'isso: a egualdade dos deveres reciprocos para a mais
equitativa distribuicao dos bens.

O Direito portanto nao so nao e uma emanacao da lei natural, mas e uma
reaccao contra essa lei.

A natureza e o triumpho brutal decretado ao forte. A sociedade e a
proteccao consciente assegurada ao fraco. A creacao funda _a luta pela
vida_. A sociedade organisa o _auxilio pela existencia_.

Uma civilisacao e tanto mais adeantada quanto mais ella submette ao seu
dominio as fatalidades naturaes. E e assim que o homem, de conquista em
conquista, chegara um dia, como diz Buechner, ao paraizo futuro, ao
paraizo terreal, d'onde nao veio mas para onde vae, e que nao e um dom
divino primitivo mas o fructo derradeiro do trabalho humano.

Todo aquelle que, no meio d'este esforco compacto da intelligencia de
cada um para o progresso geral, se detem no caminho a aprender com os
seus pedagogos a coisa a que elles ainda chamam o _Direito Natural_,
esta por esse facto fora da civilisacao e fora da humanidade.

Se o nosso intento fosse perturbar o doce repouso dos perceptores de
vossa alteza, poderiamos perguntar como e possivel ensinar todo o
direito que vossa alteza aprende, sem previamente fazer conhecer os
grandes phenomenos que o Direito tem por fim dirigir e que se chamam a
_nacao_, a _familia_, a _propriedade_, o _trabalho_, etc.

Poderiamos perguntar ainda quem e que assume a responsabilidade de
ensinar a vossa alteza a _historia patria_ e a _historia universal_
antes de se haverem recusado a exercer essa funccao os individuos
idoneos, os que pelos seus estudos especiaes demonstraram na imprensa ou
no professorado ser os mais conhecedores d'essa materia, como o snr
Pinheiro Chagas, o snr Oliveira Martins e o snr Theophilo Braga.

Poderiamos perguntar mais, se a lingoa nao sera em uma nacionalidade um
facto tao importante, pelo menos, como o direito, e se e permittido que,
no quadro dos estudos de um principe de vinte annos, se nao diga uma so
palavra relativa ao conhecimento dos grandes escriptores, depositarios
das tradicoes historicas e das tradicoes poeticas da sua patria.

Poderiamos perguntar, finalmente, como e que a _Economia politica_, a
qual Mac Culloch tao concisamente diffiniu dizendo que a _sciencia
economica e a sciencia dos valores_, se pode ensinar a um menino de
redoma, sem nocao alguma dos elementos constitutivos dos valores; sem o
conhecimento das sciencias que produzem a riqueza, como sao a mechanica,
a physica e a chimica; sem a minima ideia das materias primas que as
industrias transformam, nem dos instrumentos que effectuam essas
transformacoes, nem dos movimentos commerciaes que modificam e alteram
de logar para logar o valor dos productos; um menino que o vacuo enorme
do seu quadro d'estudos nos mostra na ignorancia absoluta do que e o
milho, do que e o trigo, do que e o arroz, do que e o assucar, do que e
o algodao, do que e a la, do que e o carvao, do que e o ferro; de um
menino que nunca foi a uma lavoura, nem a uma officina, nem a uma
fabrica; de um menino que nunca viu em exercicio uma charrua, um torno,
uma serra, uma broca, uma bomba, uma maquina de vapor ou um moinho de
vento; um menino que nunca olhou de perto para esse instrumento vivo de
todas as transformacoes industriaes, que se chama o obreiro; um menino
emfim que nunca sahiu so, e que a sua mae nunca levou as compras, a
tenda, ao talho ou a feira; e que, sabendo todos os direitos que
ha--naturaes e sobrenaturaes, publicos e particulares, nacionaes e
internacionaes,--so nao sabe ainda como se faz o pao que come e o vinho
que bebe, o tecido que o veste e a vela que o alumia, nem quanto custa o
kilo da carne ou o litro do azeite!

Nos porem nao pretendemos affligir os mestres de vossa alteza. O mestre
e irresponsavel, pela boa razao de que o mestre e nullo na direccao
intellectual do homem.

E por esse motivo que _As Farpas_ propuzeram sempre que a instruccao de
vossa alteza se fizesse, como a dos demais cidadaos, nas escolas
publicas do seu paiz. Porque a forte, a fecunda, a verdadeira licao nao
vem da auctoridade dogmatica dos mestres, vem do livre impulso dado ao
espirito e dado ao caracter pela convivencia dos condiscipulos e dos
companheiros.

E n'essa intima communhao de interesses com individuos da mesma raca, da
mesma nacao, da mesma idade, que o homem comeca a comprehender a
primeira e a mais importante nocao social, a nocao da solidariedade
humana, o mecanismo de todo o verdadeiro progresso, tendente ao triumpho
final das forcas sympathicas sobre as forcas egoistas, a adaptacao mais
perfeita do individuo a communidade.

E nao e somente o rhythmo do egoismo e da sympathia que se forma e se
regularisa nas relacoes de convivencia com os nossos similhantes. Sao as
curiosidades intellectuaes que despertam, e os conhecimentos que se
transmittem no sentido dos problemas mais importantes para a geracao a
que pertencemos.

Metade d'aquillo que valemos, moralmente e intellectualmente, devemol-o
aos contactos e as suggestoes dos individuos que nos teem rodeado
atravez da existencia. E esta uma divida que poucos se lembram de pagar,
reconhecendo com veneracao os beneficios da amisade. Todas as maes estao
prontas sempre a declinar sobre as "mas companhias" dos seus filhos a
responsabilidade dos seus desvarios. Sao rarissimas aquellas que sabem
agradecer, como collaboracao dos seus desvelos, a parte enorme que as
"companhias boas" tiveram na formacao do espirito e na formacao do
caracter, na intelligencia, na dignidade, na honra, na gloria dos seus
filhos.

O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos
vinte annos de idade elle tinha aprendido com James Mill, seu pae, tudo
quanto a sciencia pode ensinar a um sabio e a um philosopho. E todavia
Stuart Mill conta-nos na sua autobiographia que, ao perguntar um dia a
si mesmo se seria feliz, uma vez realisadas nas instituicoes e nas
ideias todas as reformas que elle projectava crear, a sua consciencia
lhe respondera:--nao. "Senti-me entao desfallecer,--diz elle;--todas as
fundacoes sobre que se tinha architectado a minha vida se desmoronaram
de repente." Mais tarde elle sentiu a dor, sentiu depois o amor, o amor
apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submettendo _a
forca dissolvente da analyse_; e foi so entao que elle se sentiu homem,
revivendo para a natureza, forte da grande forca que a natureza lhe
communicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coracao
palpitante de uma mulher que elle amou--elle o sabio, o philosopho, o
reformador frio e implacavel--com o amor illimitado, enthusiastico,
cavalheiresco, que as velhas legendas lyricas attribuem aos grandes
amantes celebres.

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